Carmim: corante do sorvete vem de inseto

Cresce o uso do corante natural extraído da chamada cochonilla carmim. Consumo do pigmento cresceu 30% nos últimos 10 anos em todo o mundo. Ele está na maioria das gelatinas e iogurtes vermelhos, no sorvete de morango e até em embutidos de carne.

Ainda assim poucas as pessoas já ouviram falar do carmim, corante natural extraído do inseto Dactylopius coccus costa, nome científico de uma espécie de cochonilha, conhecida como parasita de plantas. O uso do carmim movimenta US$ 75 milhões ao ano no mundo. O consumo internacional desse pigmento aumenta devido à sua pureza e ao uso na indústria de alimentos. No Brasil não se produz carmim, pois não existem condições ideais para a produção da matéria-prima que gera o pigmento.

Mais antigo do que se pode imaginar, o ácido carmínico era originalmente utilizado pelo povo mexicano asteca para tingir tecidos e foi introduzido na cultura ocidental por volta de 1.500 pelos colonizadores espanhóis. De lá para cá, não se encontrou substituto à altura. Embora a utilização de corantes sintéticos no início do século XXI tenha reduzido drasticamente a participação do produto no mercado, logo na década de 80 estudos indicavam problemas causados pela alta toxidade do pigmento artificial vermelho. Foi aí que o carmim voltou à pauta, sendo o principal corante de alimentos utilizado hoje. Peru Atualmente, o Peru concentra a produção de carmim, com cerca de 800 toneladas por ano. Em seguida vem o Chile, a Bolívia e as Ilhas Canárias.

Um dos pontos atrativos para a produção de cochonilha é a sua cotação no mercado internacional. O preço do quilo de cochonilhas previamente secas após a extração é de cerca de US$ 15 a US$ 20, mas já chegou a US$ 100 em “safras menores”. Para entender o porquê desse valor, basta verificar que para cada um quilo de cochonilha carmim são necessários nada menos do que 150 mil insetos, em média. Já para a extração de um quilo de ácido carmínico, base para a produção das variedades de pigmentos vermelhos, é preciso o processamento de seis a oito quilos de cochonilhas.

Produção

A “colheita” desses pequenos animais acontece em maior parte na região dos Andes, por meio do extrativismo que mantém milhares de famílias na América do Sul. A planta na qual a cochonilha carmim se fixa é uma espécie de cactus (Opuntia fícus) que é muito utilizado como cerca das casas peruanas. De acordo com informações da Christian Hansen, a maior indústria de produção de carmim e dona de uma base no Peru, existem apenas duas propriedades voltadas exclusivamente à produção de cochonilha. “A maior parte do fornecimento provém de famílias que fazem a coleta dos animais informalmente e vendem aos atravessadores da comunidade em que vivem”, diz Mirian Moraes, coordenadora de comunicação da empresa distribuidora do corante no País.

Numa etapa à frente, a produção do pigmento é realizada com o processamento das cochonilhas, a partir da extração do ácido carmínico contido apenas nas fêmeas. As tonalidades de cor vão depender do pH. Em soluções mais ácidas, a coloração será mais alaranjada. Em soluções alcalinas, a cor tende a tons de violeta. “A capacidade do ácido reagir a soluções metais propiciou o seu uso na manufatura do pigmento vermelho conhecido como carmim, cuja tonalidade varia de rosa à púrpura”, diz Mirian, acrescentando que as indústrias farmacêutica e de cosméticos usam o corante.

Consumo

Além de todas as questões curiosas que cercam a história desse corante, o fato é que, ao lado do urucum, da páprica, da cúrcuma e de outros corantes naturais, o carmim eleva sua participação no mercado de pigmentos. Seu consumo aumentou em 30% nos últimos 10 anos. A estimativa é de que o mercado dos corantes naturais como um todo já movimente US$ 700 milhões, o que representa uma alta em torno de 40% no uso nos últimos 10 anos em todo o mundo.

Inseto se espalhou pelo Nordeste

Curiosamente, no Brasil já se experimentou a implementação da cultura da cochonilha carmim, mas o resultado foi que o inseto se tornou uma praga no sertão nordestino e, até o momento, ainda se discute como exterminar a cochonilha, que se alimenta do único alimento dos rebanhos regionais resistente aos períodos de estiagem no Nordeste. A perda do controle no crescimento da população de cochonilhas ocorreu a partir de uma experiência da Empresa Pernambucana de Pesquisa Agropecuária em meados de 1999, no município de Sertânia. A idéia era oferecer mais uma opção de renda para o sertanejo por meio da coleta dos insetos. Ao contrário do que se previa, a cochonilha consolidou-se e extrapolou os limites da área experimental, atingindo também o estado da Paraíba.

“Para piorar, temos conhecimento de que é inviável a produção do ácido carmínico por meio do processamento dos animais que infestam o sertão, provavelmente devido às condições climáticas encontradas na Região Nordeste”, informa a empresa Christian Hansen do Brasil.

Fonte: Diário do Comércio

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