Compreendendo meu “Eu”

Um desafio na vida é conhecer a si próprio, e isto pode lhe trazer grandes benefícios.

“Tendo por certo isto mesmo, que Aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia de Jesus Cristo.” – Apóstolo Paulo em Filipenses 1:6.

“The self that embarks on the journey is not the self that arrives” (O eu que embarca na jornada não é o eu que chega). – David Benner, citado por Larry Crabb em “Misery Loves Company”, Conversations, vol.1:2, Fall 2003, p.7.

Em Psicologia, a palavra “self” significa “eu” no sentido de “pessoa” ou “personalidade”, aquilo que caracteriza o que um indivíduo é enquanto ser humano psicológico e social. Um desafio na vida é conhecer a si próprio, ou seja, conhecer o self. Isto é importante porque quando podemos nos conhecer melhor podemos viver melhor, fazer escolhas mais conscientes, evitar repetições de comportamentos que são ruins não só para nós mesmos mas para as pessoas com quem nos relacionamos.

Uma atriz européia disse algo interessante: “Envelhecer é ruim, mas amadurecer é bom.” E para amadurecer precisamos conhecer melhor a nós mesmos. Uma educadora escreveu: “É difícil compreender-nos a nós mesmos, ter um correto conhecimento de nosso próprio caráter.” (Ellen G. White, Mente, Caráter e Personalidade, Vol. 1, pág. 273). É verdade. É muito difícil. Nós nos enganamos com alguma freqüência, pensando que acertamos quando na verdade erramos. Isto faz parte da condição humana. “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?” Jeremias 17:9. Coração nessa passagem é o self. O self nos engana. Por isso, quando o conhecemos melhor podemos decidir agir melhor ao invés de sermos levados por motivações inconscientes não saudáveis.

Self é aquilo que determina o que uma pessoa é. O que é uma pessoa psicologicamente? É uma combinação de pensamentos, afetos (sentimentos) e ações. Pensamos, sentimos e agimos. Porém, muitas vezes uma pessoa pode não entender por que fez algo ou por que não fez algo que queria. Daí chegamos às motivações. Existem motivações conscientes e inconscientes.

Você decide fazer o vestibular para tentar ingressar numa Faculdade porque gosta conscientemente daquela área de estudos e prática profissional. Ou você pode ser motivado a seguir numa Faculdade por motivos inconscientes, por exemplo, para agradar alguém e não porque seu self realmente deseja. Pode-se ter um self dividido, não delimitado. Como é isto? É quando a pessoa diz: “Não me conheço! Não sei quem sou!”.

Uma pessoa com psicose (doença mental grave) como a esquizofrenia, tem o seu self completamente dividido. Esquizofrenia significa “divisão” (esquizo) e “mente” (frenia). Ou seja, “mente dividida”. Um esquizofrênico não tem noção nenhuma de seu self, a não ser nas fases iniciais da doença ou nos casos em que ocorre uma recuperação. Diz-se que o esquizofrênico experimenta uma separação (divisão) dentro de si sem ter uma união fora de si. Ele não consegue (a doença não permite porque ela é isso mesmo) ter uma coerência interior e nem exterior. Seu self está desagregado, enquanto nas pessoas chamadas “neuróticas” o self está, vamos dizer, “machucado”. No sofrimento emocional não psicótico, como a crise de pânico, não ocorre a cisão do self embora a pessoa tenha a sensação de que vai perder o seu self, ou o “juízo”, ou vai morrer (geralmente de ataque cardíaco). Um self desagregado é como uma folha de papel que é rasgada em várias partes, enquanto que um self “machucado” é como a folha apenas amassada.

Em situações de crises na vida é quando podemos ter uma melhor noção de como vai nosso self e nosso conhecimento do mesmo. O que ocorre com uma pessoa numa situação de crise, ou seja, como a pessoa reage? Perde o autocontrole? Desespera? Sai da realidade? Somatiza (sintomas agudos físicos não de causa orgânica)? Abusa de substâncias para anestesiar a dor e o medo? Regride a um comportamento infantil? Agride quem está ao redor verbal ou fisicamente? Ou seu self consegue administrar a situação com menos regressão e menos desagregação?

Qualquer crise é um bom momento de teste de nosso self. Mostra-nos se e o quanto temos crescido como pessoas. Isto não quer dizer que se choramos, ficamos tristes, com raiva ou angustiados isto significa que nosso self está imaturo e confuso. Não mesmo. Estes sentimentos podem ser sinais de maturidade, reações naturais diante de um evento doloroso. Podem. Penso que o conhecimento de nosso self é uma tarefa para a vida toda. E creio que quanto mais humildes formos diante do desconhecido em nós e nos outros, melhor podemos lidar com nossas limitações pessoais.

Nossa mente é um universo. Nosso self é uma complexidade e ao mesmo tempo uma simplicidade caso aprendamos com as crianças a ser. Não é à toa que Jesus disse que se não nos tornarmos como uma delas não poderemos entrar no Reino de Deus. E este Reino é onde, e só lá, nosso self será perfeito, completo e consciente.